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Somos Sementes - Artigo de Regina Sousa publicado na Revista Teoria e Debate em março/2015

Publicado: Terça, 31 de Março de 2015, 17h12 | Última atualização em Segunda, 06 de Julho de 2015, 17h14
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Até a eleição do presidente Lula, a política brasileira era um espaço quase de capitânia hereditária, onde os setores conservadores se revezavam para permanecer no poder durante séculos.
A partir da chegada do PT ao poder, ficou difícil para essa elite aceitar que um partido que veio das bases sociais, da classe trabalhadora, conseguisse eleger um presidente operário, um legítimo representante do povo.

Há, no momento, uma atitude deliberada de criminalização do Partido dos Trabalhadores. Setores da grande mídia e da elite conservadora do Brasil, que não aceitam o PT dirigindo o país, se valem do denuncismo, de uma escandalosa tentativa de golpe, defendida por quem não se conforma em ter perdido a eleição e intensamente apoiada por setores da grande mídia, declaradamente anti PT.

É verdade também que o PT, no governo, mudou a sua trajetória em algum momento. Fez uma inclinação quase conservadora dos seus princípios e dos seus objetivos, ainda que sem se desfazer da sua opção pelos pobres. Para governar, teve que construir uma grande coalizão, envolvendo partidos que nem sempre comungam dos mesmos ideais, e a impressão que fica é que o PT, em vez de transformá-los, se transformou.

Para enfrentar essa realidade, o PT precisa, primeiro, se repensar. Está na hora de termos força e coragem para refletir sobre o nosso papel, as nossas bandeiras e o nosso futuro. Não é assumir culpa de nada, por que o PT não é culpado, não é criminoso. Mas, é preciso fazer uma reflexão sobre os erros e acertos que o Partido dos Trabalhadores vem colecionando nos últimos anos.

Estamos numa fase propícia para nos olharmos e nos vermos por dentro, que é o momento pré Congresso, que vai até junho, quando acontecerá o V Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores. Será um momento muito adequado para o PT se resgatar, refletir sobre a sua história e trajetória, corrigir seus rumos enquanto partido. Atualizar a visão que tem do mundo e do Brasil para a montagem de um novo programa, quem sabe encontrar uma nova utopia que nos mova e nos unifique como partido.

O PT não pode se confundir com o governo. E porque não é o governo, o PT pode e deve se reconciliar com suas bases. Precisa estar mais inserido nos movimentos sociais, mais preocupado com a formação das novas lideranças partidárias. Precisa mudar em coisas simples, como a escolha de delegados para os encontros e congressos, a escolha de candidatos para as eleições, a sua sustentação financeira e a forma de se comunicar com seus filiados.

Foi natural que, em um primeiro momento, com a ansiedade de chegar ao poder e fazer tudo certo, compartilhássemos o poder com nossas bases, com quem lutou a vida inteira para chegar ao poder. As lideranças que vieram da luta, das bases, começaram a governar legitimamente, ocuparam os cargos. Mas, a consequência disso é que esvaziamos nossas bases de sustentação. A partir de 2003, sentimos um certo enfraquecimento das lutas sociais, parecia que estava tudo resolvido. Com os trabalhadores chegando ao poder, as lutas sociais diminuíram, não foi percebido que ao se chegar ao poder num regime capitalista, com todos os problemas e limitações de um país como o Brasil, enfrenta-se dificuldades.

Fazer uma inversão de valores, como foi feito pelo presidente Lula, dar prioridade aos mais pobres, priorizar o cuidar das pessoas, foi e é uma mudança radical pra tradição que vinha governando o Brasil.

Encontramos vários obstáculos, principalmente nos setores conservadores que não querem ver os pobres frequentando os seus ambientes. A reação dessa elite conservadora foi apontar os defeitos, enfatizá-los e cada pequeno problema foi se agigantando, pela propaganda negativa.

E nós, de certa forma, nos envaidecemos com a inclusão social como a grande obra do PT e o grande legado do nosso governo. Achamos que estávamos fazendo tudo certo, governando para os mais pobres, avançando nas políticas sociais e educacionais, formando os jovens, com programas como o Pro Jovem, o Prouni, a expansão das universidades. E de certa forma, nos acomodamos e acreditamos que só a inclusão social das pessoas bastava. Não incluímos essa massa na política. As pessoas foram incluídas economicamente, socialmente, mas não foram incluídas na política.

Nós nos acomodamos. Nós nos contentamos em ser o partido mais querido nas pesquisas. Mas, era o mais querido por 30%, 35%. Os outros partidos tinham 6%. No total, esses eram 50%. Mas, querido por quem? Por quantos? E os outros 50% que não gostavam de partidos ou não gostavam do PT? Nunca fomos atrás para saber quem era esse segmento. Houve uma acomodação da nossa parte e esse percentual que gostava do PT foi diminuindo ao longo dos anos, até quase evaporar. No fim do primeiro governo Dilma, a partir das eleições de 2014, diante de uma campanha radical contra o PT, com a clara intenção de destruir o partido. Não é fácil desconstruir um partido como o PT, porque é uma ideia, um legado, uma concepção de mundo. Mas, é isso que estamos vendo agora, estamos assistindo quase que passivamente a desconstrução do nosso PT, como que assimilando o discurso oportunista da direita raivosa, que dirigiu este país durante séculos e nunca o fez melhor do que é hoje.

Essa campanha antipetista cresceu muito no fim de 2014, e se consolida no início de 2015. O país está vivendo uma séria crise econômica e o escândalo da Petrobras está sendo utilizado para enfraquecer ainda mais a nossa economia. O escândalo existe, teve corrupção, mas está tudo sendo apurado. Nada justifica destruir uma empresa como a Petrobras que gera milhares de empregos e ajuda a fazer o país crescer. Assim como destruir as empresas prestadoras de serviço à Petrobrás, que são as maiores do Brasil, algumas do mundo. Mas não há gigante que aguente a propaganda negativa midiática, 24 horas por dia.

O Partido dos Trabalhadores tem de dar uma guinada à esquerda. A eleição de 2014 mostrou que os movimentos sociais foram decisivos para a vitória do nosso projeto para o Brasil. Chegamos a achar que ali era o recomeço do PT, apoiado nas suas bases mais sólidas, mas, logo no início do governo Dilma, os movimentos sociais e os trabalhadores foram surpreendidos e se frustraram com algumas medidas.

O ajuste é necessário, mas porque escolher os trabalhadores primeiro? Sem nenhuma preparação? Temos valorosos companheiros no governo, poderiam ter aberto um diálogo com a representação dos trabalhadores. Ou poderia ter vindo um pacote, onde o “andar de cima” também dividisse a conta.

Atrevo-me a dizer que o PT se perdeu na dicotomia partido/governo, no caminho entre o ser ou não ser governo. Para continuar governando o Brasil, precisamos de um novo bloco político, não necessariamente só partidário. Temos que fazer um pacto com a sociedade, temos que voltar a ter o pé no chão da fábrica, da escola, do bairro. Temos que sentir o sentimento do povo mais necessitado, sem esquecer que a classe média também é povo, e pode ser conquistada. E, sobretudo, devemos entrar na guerra da comunicação, tanto o PT quanto o governo, da internet, mas também da rádio comunitária, dos blogs, dos sites, da tevê aberta, que consegue transformar mentiras em verdades absolutas. E não devemos esquecer que ainda existem rincões nesse Brasil onde a comunicação não chega fácil, onde o melhor panfleto ainda tem o seu papel.

O Partido dos Trabalhadores não vai acabar. Não se apaga uma ideia que ainda povoa corações e mentes. Não se desconstrói facilmente um partido que tanto bem fez ao país e a seu povo. O PT sobreviverá!

“Quiseram nos enterrar. Não sabiam que éramos sementes” (provérbio mexicano)

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